O curso é resultado de uma parceria entre Incra e Ufma, a partir de um termo de cooperação assinado em 2008, alinhado aos objetivos do Pronera de proporcionar educação nas áreas de assentamento. As aulas deverão ser ministradas em Bacabal.
O primeiro vestibular da Reforma Agrária. Assim ficou marcada a tarde do domingo para 328 trabalhadores e trabalhadoras rurais de assentamentos no interior do estado e comunidades quilombolas inscritos no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).
Os candidatos vieram à capital para provas de conhecimentos gerais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e estão disputando 200 vagas para o curso de licenciatura em Pedagogia da Terra.Comitivas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Associação em Área de Assentamentos no Maranhão (Assema) e Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do estado (Aconeruqui) chegaram há cerca de uma semana para preparar os candidatos em um curso de revisão intensiva. Numa das caravanas, Marly de Jesus, 51. A mulher mais velha do grupo é natural do assentamento Diamante Negro Jutaí, moradora da comunidade Nova Morada, no município de Moção.Marly, professora formada pelo Magistério do Pronera nas comunidades, deixou a casa e uma turma de crianças para as quais leciona a fim de aproveitar o que ela chama de “a grande chance”. Ela já é professora há oito meses e uma das responsáveis pela educação básica dos filhos de outros assentados.O que ela busca é a realização de mais uma etapa na construção do seu conhecimento; para ela a possibilidade de atingir o nível superior depois de um pouco mais de meio século de vida, apesar de mostrar as desigualdades para os trabalhadores do campo não é ultrajante a ponto de fazê-la imaginar ser tarde para o acesso à universidade: “Tive o empurrão, com o programa, para vir pra cá, esta é uma chance pra muitos de nós, abriu portas, deu força, agora é com a gente”, disse a mulher a caminho da sala da prova, carregando uma mala pesada.Como ela, Hildo Lopes de Souza, 56, trabalhador rural. Ele mora no assentamento estadual Aparecida Ludovico, em Lago do Junco. O trabalhador viajou 317 quilômetros para fazer o primeiro vestibular. O lápis apontado e gasto é o instrumento que Hildo começou a manusear com o Pronera.Por meio do programa ele fez o ensino fundamental e concluiu o ensino médio. Para as próximas etapas de sua vida ela já sabe o que quer estudar: “Minha monografia vai contar a história do Pronera, quero fazer este curso e terminar ele escrevendo sobre o programa que vi nascer aqui no Maranhão”, relata Hildo.
O superintendente regional do Incra no Maranhão, Benedito Terceiro, explicou que o curso é pautado no intercâmbio teoria/prática e está orçado em R$ 3.600.000 milhões. “O campo não vai perder seus atores. Eles (os assentados) estarão custeados para o estudo e terão carga horária teórica e na terra.
Entraves
O presidente do Conselho Estadual de Política da Igualdade Étnico-racial e coordenador geral do Centro de Cultura Negra, Luis Alves Ferreira, anunciou o seletivo como um “avanço democrático na educação do país”, embora o Pronera tenha sido questionado por “inconsistências” no Tribunal de Contas da União (TCU), que em 2008, proibiu o Pronera de executar suas atividades por meio de convênios.No último mês de julho, o presidente nacional do Incra Rolf Hackbart anunciou aos movimentos sociais ligados ao campo que os recursos para o Programa seriam assegurados e a discussão sobre a recomposição orçamentária estaria sendo negociada com o ministro do Planejamento, Paulo Bernado.Para o presidente e militante nas questões étincas, são “resistências” ao Programa. “O mais importante é que a igualdade começa a ser vivida para as populações do campo”, disse Luis Alves Ferreira.
Pronera
O Programa começou no Maranhão em 1990 com a alfabetização das famílias assentadas, logo depois a atuação do programa foi estendida com os cursos de magistério em nível médio, técnicos em saúde comunitária e agropecuária. Dos 615 assentamentos do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em média 300 comunidades foram atendidas pelo programa de educação, somando 3.336 alunos em sala de aula. Durante os dez anos, o Pronera já atendeu 17.275 pessoas. Kássia Brito-O Imparcial
